Abri os olhos e ao longe vi .
Cidade pequena escondida na poeira do
estradão, duas ruas principais se cruzando .
Um mercado que vendia tudo, de facas à tenis
da nike.Parei no posto de gasolina e fui
comer um bolo. Doce era uma coisa rarisima
na nossa viagem,doce também era a
atendente (sem maldade nesta frase).
começamos a conversar e ela foi me contando
o que rolava em itacajá : das festas , das
pessoas e dos krahô. Meu coração já
apertado de ansiedade se apertava ainda
mais.
Conversamos um tempão e meu
caminhão chegou, paguei,me despedi e nem
perguntei o nome dela, por puro
esquecimento.Descarregamos o onibus e
começamos a carregar o caminhão , pela
quantidade de coisas foi necessário chamar
mais um. No segundo caminhão que foram as
pessoas e mais coisas.
o caminhão cortando o cerradão
no meio da noite. Amigos dos lados se
seguravam como podiam . Um mehin dizia " é
assim que o mehin viaja". Espremidos entre
malas presentes e cestas básicas , eu cortava
a noite estrelada do norte brasileiro.
A
vegetação seca , o ar frio , o cheiro de fumo.
Era uma experiencia unica , e só estava
começando.
depois de minutos no escuro ,
pequenos feixes de luz atravessaram a
escuridão. Foi a cena mais cinematográfica
da minha vida. Não chorei por que não sou
desses, mas foi realmente emocionante.
Palavras de boas vindas, um banho no
escuro, nossas malas num canto da sala da
escola kraho. Sono. A faca do professor ,que
agora já era amigo, dividindo a comida com
os que estavam no quarto.
Rituais, novos nomes.
Um pai,
uma familia. não faziam nem 24 horas que eu
estava ali e eu já era abraçado por essa rua
tão cheia de significados e amor. Pessoas do
nada me paravam e perguntavam se eu era
filho do kothet, eu meio sem saber respondia
que sim e elas se apresentavam como tios,
primos, amigos de familia. Amor sincero,
coisa rara e bonita de se ver . O chão era
vermelho, cerradão. Cidade redonda onde em
quase toda casa eu tinha amigos. Natureza,
banhos quase toda hora . eu me senti como
um daqueles colonizadores que se
espantavam com a quantidade de banhos. Me
banhei sempre que possivel.
A natureza era (!). falar o que ?
tudo tinha nome , tudo tinha sentido e forma
de se lidar. Um mapa gigante na mente ,do ir
e do não ir , me lembrava do meu pai e meu
tio me dizendo dos lugares aonde não ir no
rio de janeiro. Domingues me falava do morro
ken atrás de nossa casa, de lá de cima se via
toda terra krahô , a do presente e a do
passado. Morro Ken, casa de araras, de
rochas cheias de ferro na composição e de
histórias sobre o viver.Os pés de caju
sofreram com a nossa presença ! sucos feitos
à mão. Agrotóxicos pra que ? caju natural
nascendo maior que manga carlotinha.
Canções, danças madrugada à
dentro . "jakana prã " anunciando que a carne
estava posta ! que começe a preparação do
paparuto. Não era bem o que esperavamos ,
mas até que era bom (menos quando se come
um inteiro , como eu fiz, as consequencias
são meio ruins). Corridas de tora onde o
importante é realmente competir. Terminar
empatado é melhor que termos derrotados.
Porque a sociedade não aprende isso ? O
futebol, que caras velozes ! aqui eles queriam
ganhar , mas a #Geomaica não deixou (uh ,
geomaica !). Empatamos e sorrimos no final.
O sol, a aldeia e eu acordavamos
mais tristes no outro dia. Eu olhei pra Andréia
e disse, lá vamos nós. Despedida, o caboclo
que amou demais a india me deu uma
maraca. Cara incrivel. tinha uma unica blusa ,
não sei se foi certo, mas deixei uma das
camisas que mais gosto pra ele, enquanto
pensava em quão escroto eu era por ter umas
500 camisas no meu armario. Abraço no
domingues, beijo nas crianças. O caminhão
chegava, a aldeia parecia tão concentrada ali
quanto no momento em que chegamoss. Um
choro da tuy da veve ,abraço forte que ficou
marcado pra sempre no corpo e no coração
da Veve. Eu pegava minhas bolsas, subi no
caminhão. Estavamos voltando pra casa,
levantei a lança e a estrada se abriu à nossa
frente. krahô vive ,resiste e se reinventa.
Entrei Cupein kateje , e sai mehin krahô e
independente da rua que eu ande isso não muda. Nunca.
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