domingo, 5 de janeiro de 2014

Uma Rua Chamada Krin #outrasruas

                                Abri os olhos e ao longe vi . Cidade pequena escondida na poeira do estradão, duas ruas principais se cruzando . Um mercado que vendia tudo, de facas à tenis da nike.Parei no posto de gasolina e fui comer um bolo. Doce era uma coisa rarisima na nossa viagem,doce também era a atendente (sem maldade nesta frase). começamos a conversar e ela foi me contando o que rolava em itacajá : das festas , das pessoas e dos krahô. Meu coração já apertado de ansiedade se apertava ainda mais.
                             Conversamos um tempão e meu caminhão chegou, paguei,me despedi e nem perguntei o nome dela, por puro esquecimento.Descarregamos o onibus e começamos a carregar o caminhão , pela quantidade de coisas foi necessário chamar mais um. No segundo caminhão que foram as pessoas e mais coisas. o caminhão cortando o cerradão no meio da noite. Amigos dos lados se seguravam como podiam . Um mehin dizia " é assim que o mehin viaja". Espremidos entre malas presentes e cestas básicas , eu cortava a noite estrelada do norte brasileiro.
                           A vegetação seca , o ar frio , o cheiro de fumo. Era uma experiencia unica , e só estava começando. depois de minutos no escuro , pequenos feixes de luz atravessaram a escuridão. Foi a cena mais cinematográfica da minha vida. Não chorei por que não sou desses, mas foi realmente emocionante. Palavras de boas vindas, um banho no escuro, nossas malas num canto da sala da escola kraho. Sono. A faca do professor ,que agora já era amigo, dividindo a comida com os que estavam no quarto. Rituais, novos nomes.
                           Um pai, uma familia. não faziam nem 24 horas que eu estava ali e eu já era abraçado por essa rua tão cheia de significados e amor. Pessoas do nada me paravam e perguntavam se eu era filho do kothet, eu meio sem saber respondia que sim e elas se apresentavam como tios, primos, amigos de familia. Amor sincero, coisa rara e bonita de se ver . O chão era vermelho, cerradão. Cidade redonda onde em quase toda casa eu tinha amigos. Natureza, banhos quase toda hora . eu me senti como um daqueles colonizadores que se espantavam com a quantidade de banhos. Me banhei sempre que possivel.
                           A natureza era (!). falar o que ? tudo tinha nome , tudo tinha sentido e forma de se lidar. Um mapa gigante na mente ,do ir e do não ir , me lembrava do meu pai e meu tio me dizendo dos lugares aonde não ir no rio de janeiro. Domingues me falava do morro ken atrás de nossa casa, de lá de cima se via toda terra krahô , a do presente e a do passado. Morro Ken, casa de araras, de rochas cheias de ferro na composição e de histórias sobre o viver.Os pés de caju sofreram com a nossa presença ! sucos feitos à mão. Agrotóxicos pra que ? caju natural nascendo maior que manga carlotinha.
                        Canções, danças madrugada à dentro . "jakana prã " anunciando que a carne estava posta ! que começe a preparação do paparuto. Não era bem o que esperavamos , mas até que era bom (menos quando se come um inteiro , como eu fiz, as consequencias são meio ruins). Corridas de tora onde o importante é realmente competir. Terminar empatado é melhor que termos derrotados. Porque a sociedade não aprende isso ? O futebol, que caras velozes ! aqui eles queriam ganhar , mas a #Geomaica não deixou (uh , geomaica !). Empatamos e sorrimos no final.
                        O sol, a aldeia e eu acordavamos mais tristes no outro dia. Eu olhei pra Andréia e disse, lá vamos nós. Despedida, o caboclo que amou demais a india me deu uma maraca. Cara incrivel. tinha uma unica blusa , não sei se foi certo, mas deixei uma das camisas que mais gosto pra ele, enquanto pensava em quão escroto eu era por ter umas 500 camisas no meu armario. Abraço no domingues, beijo nas crianças. O caminhão chegava, a aldeia parecia tão concentrada ali quanto no momento em que chegamoss. Um choro da tuy da veve ,abraço forte que ficou marcado pra sempre no corpo e no coração da Veve. Eu pegava minhas bolsas, subi no caminhão. Estavamos voltando pra casa, levantei a lança e a estrada se abriu à nossa frente. krahô vive ,resiste e se reinventa. Entrei Cupein kateje , e sai mehin krahô e independente da rua que eu ande isso não muda. Nunca.

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