terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Emanuel : O Rei Que Nasceu No Suburbio
Era uma manhã de quarta feira,
um choro se ouvia num cantão qualquer desses ai do suburbio, segundo meu pai,era em madureira. Um neguinho vinha ao mundo ,
nascido nos fundos de uma oficina de
bicicleta. Seu pai nem sabia se era seu filho legítimo, mas os olhos negros e profundos desse pirralho eram encantadores. Neles zé
enxergava toda sua vida e sua infância. "DNA pra que ? tenho amor, isso basta!" dizia zé com seu filho no colo.
Sabendo desse flamenguista que
nascia , uns manos de outras quebradas vieram lhe ver. O mundo não sabia, mas esse menó era especial. Um veio em pé num Japeri
lotado lá da baixada, o outro aproveitou o riocard da empresa que trabalhava e veio de busão lá do Gardenia Azul. O outro veio lá de
São Gonça . De longe, mas valia a pena. Um trouxe um cordão de ouro , o outro trouxe um 212 carolina herrera pra ele usar quando fosse mais velho e o outro trouxe uma garrafada de agrião com saião, pra deixar o
pulmão de menino forte. Não que este menino precisasse desses presentes, mas os presentes foram de coração.
O menino crescia em graça e
sabedoria, jogava bola, torcia pelo flamengo.Era tão inteligente que ia pouco a escola.Achava tudo muito chato. Achava mais legal ficar na marcenaria de seu zé , que mesmo
quase analfabeto , era um homem sábio. Certo dia , numa roda de rima lá em Vila Isabel, o menor chegou no meio dos sábios da rima e começou a disparar varias verdades
rimadas. O menino era um talento nato ! Era algo divino sua habilidade com as palavras , que além de muito bem encaixadas , traziam verdades e emocionavam as pessoas. Falava
de amor, de fé e de diversas outras coisas. Era dificil desse cara perder uma batalha.
O menino cresceu e se tornou
MC . Onde esse MC se apresentava , juntava gente, que saiam de suas apresentações muito felizes e inspirados à serem melhores
pessoas . Há quem diga que ao encontrar esse cara se sentiam melhores de suas dores
nas costas, e doentes que ouviam suas palavras melhoravam rápidamente. Multidões seguiam curtindo seu funk . Era tanta fama
que quando ele visitou a CDD (numa moto emprestada,diga se de passagem) todos iam pras janelas pra saudar ele . Tinha muito
conceito em todos os morros e favelas do Rio,por isso era chamado de "o rei das favelas" . Tinha amigos esquisitos,conversava com os cracudos, era amigo de caras envolvidos com o governo do Cabral ,policiais
de UPP , gente que já foi envolvida com prostituição, e tratava esses (que a sociedade desprezava) como gente da familia. Não que ele fosse a favor dessas práticas , mas ele amava as pessoas, não o que elas faziam.
Mas isso causava inveja. Outros
MCs ,que só cantavam proibidões e só faziam funk pelo dinheiro odiavam esse meu amigo .Tanto que tramaram entre eles de juntar um bonde financiado pelo tráfico pra quebrar
nosso MC . Ele tava lá de boa com uns
amigos no morro , quando o carro preto passou lá . Um amigo dele meteu bala pra cima dos caras, mas nosso MC pediu calma e deixou que lhe levassem dali. Num tribunal
entre eles, por voto unanime resolveram que iam matar ele, e liberar um traficante chamado "Barra", que era lá da Zona Oeste . O menino de madureira apanhou igual tambor
de macumba. Enquanto riam e zombavam dele , os soldados do tráfico cuspiam e o chamavam dos piores nomes possiveis. Bateram demais nele, deram tiros nas mãos e
nos pés e o desovaram lá pras bandas de Caxias, junto com uns dois ladrõezinhos que tavam roubando na comunidade. Os familiares e amigos
encontraram nosso MC quase morto , e um amigo rico decidiu levar o corpo em coma lá pro Barra D'or. Os médicos deixaram ele nos aparelhos, mas era visto como morto. A
esperança ia se esvaindo de todos , e a tristeza tomava conta dos suburbios cariocas, onde já existia até fã clube dele. Amigos reunidos choravam a quase certa morte do MC. Sua
amiga que foi prostituta e outra amiga foram visitar ele no hospital. esperaram,mas na hora da visita foram avisadas que ele tinha
tido alta e ido embora, mas esqueceram de avisar à familia.Elas estranharam e voltaram
pra casa. Ele pegou um taxi rumo ao subúrbio e o taxista veio falando de letras de um MC que era tido como morto , e que todo o suburbio ,de Madureira à Pavuna chorava a
dita morte dele. Ele não reconheceu seu ilustre passageiro, que tava com um holbrook na cara , um pouco mais magro e com uma barba pra fazer (coisa rara de se ver).
O taxi encostou na casa onde seus amigos estavam . O taxista ficou tão alegre com a conversa que até esqueceu de cobrar a viagem. O Mc entrou na casa sem fazer barulho , chegou na sala e disse " fala galera ! tudo em paz ?" e os amigos se
assustaram e chegaram a achar que era um fantasma. Mc TOM, que estava lá não acreditou e pediu pra tocar nele , pra ver se era verdade , ao pegar sua mão e ver as marcas dos tiros que deram nelas , ele acreditou ! Seu amigo estava vivo ali na sua
frente ! Todos se abraçaram e combinaram no outro dia de ir pra Barra de Guaratiba comemorar a melhora de seu amigo. Mas ele
tava cheio de fome , e decidiram fazer um churras ali mesmo pra comemorar. No outro
dia, foram pescar em Barra de Guaratiba, como combinado.
Na volta, num campinho de terra
onde certa vez fez teste pro flamengo , nosso MC disse algumas palavras de encorajamento à seus amigos e à uma galera que estava por ali, e do nada , enquanto conversavam, um
helicóptero veio descendo e jogou uma escada. E ele subiu na escada e entrou no helicóptero. E os amigos perguntaram " pra onde tu vai parceiro " , e ele sorrindo, em meio
a todo aquele barulho das hélices, dizia " vou fazer uma viajem, mas já já volto, espalhem meu funk por ai, sejam bons . muito amor !" O
helicoptero subiu , subiu e se perdeu no horizonte carioca. Sua musica se espalhou por todo o mundo , e ele se tornou referencia pra muita gente boa por ai...
Esse menino nasceu , como
muitos outros meninos nascem , na pobreza , na miseria e de condições não muito aceitas socialmente. Não nasceu branco , não estudou em boas escolas, mas sua essência
inspirou vidas de muitas outras pessoas. Foi mal entendido por amar a vida , amar a vida dos outros, amar a verdade. Hoje ,na favela, graças à esse cara , todo menino pode acreditar que pode mudar de vida, mudar
vidas , mudar o mundo. Se foi, mas suas letras e palavras (independente das criticas) continuaram e continuarão inspirando vidas
como a minha. Um salve pro meu mano MC
JotaCê ,Feliz aniversário ! esperamos ansiosos por sua volta meu parceiro!
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Histórias E Bicicletas : Resistência, mapeamento, treta e muito amor.
Eu tô aqui brincando , mas não é sobre o belíssimo CD do Oficina G3,um dos grandes nomes do rock nacional . É sobre eu,sobre minhas bicicletas e sobre nossa passagem pela cidade
Eu com 5 anos chorei ,briguei ,chorei mais e meu pai me deu uma bicicleta do Seninha ,e ai começou a minha experiência de liberdade . Eu menino que morava no morro,começava aos poucos a ir pro asfalto andar de bicicleta . Era na minha própria rua,mas era um avanço enorme. Supervisionado pelo meu pai , eu tinha meu primeiro contato com a rua: seus cuidados , seus truques, e ainda pequeno me perguntava o por que de todos esses meninos não terem uma bicicleta como eu. Eu sempre emprestava a bike para eles. Foi assim que eu perdi a minha primeira bike
Anos se passaram , eu cresci, e a minha bicicleta cresceu. Minha mãe queria que eu ficasse só na minha rua. Estava só, ma ainda era a minha rua. Quase apanhei quando vizinhos fofoqueiros foram contar para a minha mãe que eu andava pela rua de trás, que segundo a minha mãe "só tem maconheiro". Como castigo ,ela me fez ir num mercado que ficava em outro bairro. Eu ,desacostumado a andar só, fui cheio de medo . Foi o melhor castigo que ela pode me dar.
E pouco a pouco eu indo ao mercado descobria outros caminhos ,galeras , os "bondes da bike" , a cidade. Não havia medos,e os limites se ampliavam. O limite era a força e resistência durante o pedalar. Bairros ,ruas,municípios, eu rodava e ia mapeando : onde ir, onde não ir, os brechós(que ainda são um vicio), as padarias pelo tipo de pão que vendiam e todos os caminhos que levem à roma , ou à Dutra.
Chegou a um ponto em que todos os dias eu invadia o urbano montado na minha poti. Se eu sempre conhecia o pobre , passei a ver os dois lados. A transformação da paisagem no trajeto da minha casa ao centro era gritante ( e olha que eu morava no bairro da luz, que é "quase centro") . "por que essa paisagem ?"me perguntava enquanto mergulhava no bowl da mítica praça do skate.
Se hoje penso e faço dialética na rua, se hoje penso o espaço, se hoje faço geografia , é por causa de uma bicicleta Senninha que ganhei tempos atrás. Este texto é dedicado aos meninos e meninas , que como eu , invadem o urbano e subvertem a lógica do transporte , seja por necessidade ou por pura diversão, montados em uma poti ,ou em uma cross... Nossa simples existência e pedalar modificam o urbano. Nós somos a cidade sobre duas rodas, impulsionados pela força da rua.
Anos se passaram , eu cresci, e a minha bicicleta cresceu. Minha mãe queria que eu ficasse só na minha rua. Estava só, ma ainda era a minha rua. Quase apanhei quando vizinhos fofoqueiros foram contar para a minha mãe que eu andava pela rua de trás, que segundo a minha mãe "só tem maconheiro". Como castigo ,ela me fez ir num mercado que ficava em outro bairro. Eu ,desacostumado a andar só, fui cheio de medo . Foi o melhor castigo que ela pode me dar.
E pouco a pouco eu indo ao mercado descobria outros caminhos ,galeras , os "bondes da bike" , a cidade. Não havia medos,e os limites se ampliavam. O limite era a força e resistência durante o pedalar. Bairros ,ruas,municípios, eu rodava e ia mapeando : onde ir, onde não ir, os brechós(que ainda são um vicio), as padarias pelo tipo de pão que vendiam e todos os caminhos que levem à roma , ou à Dutra.
Chegou a um ponto em que todos os dias eu invadia o urbano montado na minha poti. Se eu sempre conhecia o pobre , passei a ver os dois lados. A transformação da paisagem no trajeto da minha casa ao centro era gritante ( e olha que eu morava no bairro da luz, que é "quase centro") . "por que essa paisagem ?"me perguntava enquanto mergulhava no bowl da mítica praça do skate.
Se hoje penso e faço dialética na rua, se hoje penso o espaço, se hoje faço geografia , é por causa de uma bicicleta Senninha que ganhei tempos atrás. Este texto é dedicado aos meninos e meninas , que como eu , invadem o urbano e subvertem a lógica do transporte , seja por necessidade ou por pura diversão, montados em uma poti ,ou em uma cross... Nossa simples existência e pedalar modificam o urbano. Nós somos a cidade sobre duas rodas, impulsionados pela força da rua.
Local:
Nova Iguaçu - RJ, Brasil
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