Eu tô aqui brincando , mas não é sobre o belíssimo CD do Oficina G3,um dos grandes nomes do rock nacional . É sobre eu,sobre minhas bicicletas e sobre nossa passagem pela cidade
Eu com 5 anos chorei ,briguei ,chorei mais e meu pai me deu uma bicicleta do Seninha ,e ai começou a minha experiência de liberdade . Eu menino que morava no morro,começava aos poucos a ir pro asfalto andar de bicicleta . Era na minha própria rua,mas era um avanço enorme. Supervisionado pelo meu pai , eu tinha meu primeiro contato com a rua: seus cuidados , seus truques, e ainda pequeno me perguntava o por que de todos esses meninos não terem uma bicicleta como eu. Eu sempre emprestava a bike para eles. Foi assim que eu perdi a minha primeira bike
Anos se passaram , eu cresci, e a minha bicicleta cresceu. Minha mãe queria que eu ficasse só na minha rua. Estava só, ma ainda era a minha rua. Quase apanhei quando vizinhos fofoqueiros foram contar para a minha mãe que eu andava pela rua de trás, que segundo a minha mãe "só tem maconheiro". Como castigo ,ela me fez ir num mercado que ficava em outro bairro. Eu ,desacostumado a andar só, fui cheio de medo . Foi o melhor castigo que ela pode me dar.
E pouco a pouco eu indo ao mercado descobria outros caminhos ,galeras , os "bondes da bike" , a cidade. Não havia medos,e os limites se ampliavam. O limite era a força e resistência durante o pedalar. Bairros ,ruas,municípios, eu rodava e ia mapeando : onde ir, onde não ir, os brechós(que ainda são um vicio), as padarias pelo tipo de pão que vendiam e todos os caminhos que levem à roma , ou à Dutra.
Chegou a um ponto em que todos os dias eu invadia o urbano montado na minha poti. Se eu sempre conhecia o pobre , passei a ver os dois lados. A transformação da paisagem no trajeto da minha casa ao centro era gritante ( e olha que eu morava no bairro da luz, que é "quase centro") . "por que essa paisagem ?"me perguntava enquanto mergulhava no bowl da mítica praça do skate.
Se hoje penso e faço dialética na rua, se hoje penso o espaço, se hoje faço geografia , é por causa de uma bicicleta Senninha que ganhei tempos atrás. Este texto é dedicado aos meninos e meninas , que como eu , invadem o urbano e subvertem a lógica do transporte , seja por necessidade ou por pura diversão, montados em uma poti ,ou em uma cross... Nossa simples existência e pedalar modificam o urbano. Nós somos a cidade sobre duas rodas, impulsionados pela força da rua.
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