terça-feira, 19 de novembro de 2013

Zumbi Vive !

                      Ai você me pergunta : quem é você pra dizer isso ? Bom , eu sou negro. Talvez isso já seja o bastante, mas para os amiguinhos que continuam nessa de se perguntar deixo um lembrete : não sou dono da verdade absoluta, alias ,acho que esta não existe em meios humanos. Na MINHA visão de menino que anda , ouve e sente por ai, ouso dizer onde zumbi ainda vive para mim.
                     Zumbi vive na favela, que apesar dos pesares resiste e se expande a cada dia, digo tanto de suas extensões territoriais quanto da extensão de seu territórios culturais . Zumbi sobrevive nas pequenas subversões geradas nesse espaço que zombam,mixam e remixam a forma de pensar/fazer unica , no não caber da cultura popular no mainstream e , ao mesmo tempo, do usufruir de todo o aparato técnico dado pelo mundo globalizado, ou como diria  Miltão,
"a emergência de uma cultura popular que se serve dos meios técnicos antes exclusivos da cultura de massaspermitindo-lhe exercer sobre esta última uma verdadeira revanche ou vingança."
                    Zumbi vive no candomblé ,obviamente, pela resistência de seus tambores e de seus ritos. Mistérios vindos de além mar  e enraizados aqui. Zumbi vive ,não tão obviamente, no canto negro dos choirs , que rememoram de sua forma o blues e outros ritmos negros (que quase não são lembrados como tal porque foram aclamados pela critica e deram origem ao rock) oriundos dos chain gangs de uma escravidão de outro lugar . Continuamos presos pela mesma corrente.Zumbi vive no Funk , que mesmo sendo "som de preto e de favelado" quando toca , ninguém fica parado. Resiste a critica , se reinventa a cada ano e não se perde.
                    Zumbi não vive em alguns "movimentos negros "que se dizem porta vozes da minoria (minoria?) negra mas que na verdade só usam do discurso racial para levantar votos para partidos que eu ,sinceramente,não acredito que vão fazer alguma coisa palpavel pelos negros do Brasil, alias, eu não acredito mais em partidos à muito tempo. E logo a esquerda , que se diz tão contra a ideia da "massa de manobra" vive a fazer isso apoiados nas costas do povo preto . Zumbi não vive na exotização da cultura negra nem na safarização da favela e da cultura do favelado,Zumbi vive no respeito ! Tenho minhas duvidas se Zumbi vive nas cotas , acho que se ele estivesse vivo lutaria por educação de qualidade e acessível , ainda mais sabendo que , se podemos passar um remédio na ferida , por que então só colocamos um band aid ? Mas acredito que também vive em todos aqueles que não podiam estar na universidade e hoje estão.Nestes Zumbi vive.
                  Zumbi vive quando se fala de Joaquim Barbosa, Milton Santos, Lima Barreto,Manuel Querino,Luís Gama... Zumbi vive em mim e em outras duzias de meninos que mesmo tendo tudo para dar errado deram certo por puro heroísmo e vontade de passar por cima dos obstáculos , que parecem ser feitos para o negro e pra aqueles que ,como diria Caê, de tão pobres ,são negros.Zumbi vive em meu pai, e no pai dele , que mesmo não tendo grandes estudos e grandes oportunidades foram homens honestos e trabalhadores, caras que souberam dar valor a cultura negra .
                 Meu avô do samba ,negro, pobre,nordestino , sofreu todo o tipo de preconceito , teve todo o tipo de chance para entrar pra vagabundagem, mas foi o verdadeiro malandro e criou homens de carater , esfregando , mais uma vez na cara da sociedade que cor da pele não define caráter. Meu pai, da black music , admirador dos Black Panthers , sempre perto da vagabundagem mas nunca se tornou vagabundo . Negro , pobre, morador de comunidade carente. Vive. Enquanto meninos da mesmíssima condição já estão com Deus à muito tempo.Venceu, à sua maneira, mas venceu. Ele dizia "Não existe cota pra vencedor nessa vida ,corre atrás Filipe". e é isso que tenho feito.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Sobre Chico Buarque,Nego do Borel, Bourdieu e a academia que eu quero

                                Antes de tudo, este texto quase que não não vai falar dos referidos em seu tema . De coração, nada tenho contra chico , nem contra quem o ouve . E digo mais, não foi intencional a escolha de tal nome, foi o primeiro que veio na minha mente . poderia citar ai mais uma centena de nomes , tanto da nossa nacionalidade , quanto do exterior. Coisas como " cara, legião é a melhor coisa do mundo " ou " Cazuza (que era mó burgues) é mito/deus e blablablá... como não amar ? " acompanharam a minha infância e Adolescência. As vezes penso que isso me fez mal, pois não conheço a fundo NADA desses caras (e sinceramente já não tenho a menor vontade de conhecer), as vezes penso que isso fez bem, pois me levou a escutar coisas realmente populares e até não populares (por populares, chamo as coisas do povo, pelo povo e para o povo) , mas menos valorizadas que as canções destes nomes citados.
                               Todos conhecem faroeste caboclo , que realmente não pode se dizer nada de mau, é uma bela canção. Mas e a "saga de um vaqueiro" ? da banda Mastruz com Leite ? quem ai conhece ? acho difícil algum dos meus amigos ditos "cultos" conhecer. Pois bem. Para os que não conhecem ,a saga do vaqueiro conta uma historia sobre um vaqueiro (dã) e as indas e vindas em uma busca por estar junto de seu grande amor. é uma canção que deve ter uns 8-9 minutos de duração (tipo a faroeste). Não contarei o final da história , mas garanto que é mais surpreendente que faroeste. Porque "faroeste" é maravilhosa e "a saga" é feia ? (não na minha opinião).Sinceramente se você leu até aqui pensando em encontrar uma resposta, lamento mas também não a tenho.Até tenho a resposta, mas vou a deixar subentendida. Sei que ocorre uma certa supervalorização de algumas coisas de nosso panteão cultural em detrimento de outras, e isso restringe a ampliação do nosso conhecer.
                           Já pararam pra pensar. Quantas vezes você viu um clipe do Cazuza ou da legião na MTV ? quantas vezes você ouviu numa grande rádio em nível de transmissão nacional alguma musica que representasse essencialmente o mercado musical ? Refaça essas duas perguntas , mas substitua o mainstream pop/rock por uma musica do nosso sentimento ou do forró limão com mel e mercado musical por produção "mais popular".Sabemos que a grande mídia nunca quis favorecer as classes menos privilegiadas ou a cultura/produção destas , tudo que é feito é feito pela classe média e voltado para o entretenimento da classe média (não a chamada nova classe média, essa foi descoberta como mercado recentemente , principalmente pela globo).Tudo que foi recebido foi por simples imposição dos gostos e modelos de bem viver (ou bem estar HUAHAUAHUAHU) de uma classe social nesse longo período de violência simbólica (salve Bourdieu!) gerado historicamente pela grande mídia brasileira , que é pela/para a burguesia (to marxista demais hoje). e infelizmente tem gente boa,que nem é burgues se contaminando/já contaminada com isso , e o pior: brigando com seus irmãos de classe por não terem sido contaminados.
                     Dai ,vivemos numa época em que se eu falar que gosto de funk e pagode na universidade , sou quase que morto, porque o "universitário tem que ser o estandarte do o que é 'culto'",e é tal postura que limita a atuação da academia como agente de transformação social,criando um muro gigante entre a teoria e a prática.Infeliz postura que gera muitos academicos por aí que gostam muito de pobre... pra fazer pesquisas com eles e engordar curriculo lattes, melhorar suas realidades que é bom... só no papel mesmo.
                    Escrevi esse texto porque dia desses falei que Chico Buarque ,pra mim, não é grande coisa. é obvio que tem toda a questão dele falar contra a ditadura e tal , que realmente é importante, mas fora isso, nada demais. Por causa dessa opinião , perdi amiguinhos (que pena !). Mas por sorte , outros amiguinhos que entendem as racionalidades alternativas e as subverssões da cultura popular se juntaram e formam resistencia ao modelo de pensar e ouvir unico. Não quero implantar a ditadura boreliana (salve Nego do Borel!) na universidade, porque também não seria certo, eu estaria fazendo a mesma coisa que fazem comigo hoje. Eu só queria que as pessoas ,em vez de torcer o nariz e meter um cd da marisa monte pra tocar,se abrissem para os outros modos da produção cultural,quebrando assim alguns muros que existem entre "o pistão" e a "facul". Isso seria um dos passos para que a academia estivesse mais na rua, e a rua mais dentro da universidade.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ostentação E Tudo Aquilo Que Eu Ainda Não Entendo.

Sei lá cara. Não acredito que esse negocio de funk ostentação seja tão ruim. Engrosso o coro que guime e outros mestres do "esbanjamento" fazem , de que isso é pra mostrar que a favela também pode. E Eu acho que é mesmo.
 Certa vez Emicida deu o papo " nós qué mulher sim,qué um din também", e essa frase acende na minha cabeça toda vez que ouço falar na ostentação. Talvez Guime ,Lon , e outros não se ligaram suficientemente, mas esse movimento da ostentação , a meu ver, é nada mais que um grito de "oi, a favela também faz,também tem e logo também pode ser igual a vocês". É mais do que simplesmente contar plaquês de cem dentro de um citroen.
 Os esquerdalhas chatos logo vão falar que "funk ostentação é uma coisa do povo(funk)abraçada pelo consumismo" e qualquer outra coisa tipica dos vermelhos falarem. É obvio que o funkost (chamarei assim pra facilitar) virou comercio, mas me digam ai :que ramo da musica não virou? No sistema capitalista até Deus é mercadoria.

 "Então Filipe , o que tu acha que é o funkost ?"

 Cara ,nem sei te responder. Acho que o funk ostentação , na minha humilde opinião , é exatamente o que Renato Russo dizia em " Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês" . É pegar algo genuinamente popular e fantasiar daquilo que o burguês acha e chama de "way of life", e sair à brincar por ai . É ironizar tudo aquilo que o sistema ama de uma forma que o sistema odeia, por ser cultura de pobre ,de preto e de favelado. O funkost é subversão de rua , e na minha opinião , a mais popular da história do Brasil.
Tá , sei que exagerei bastante , mas não sei se disse, esse é um pensamento à ser ainda finalizado (ou não) sobre algo que não se sabe ainda quanto durará . Não entrarei no mérito de discutir sobre apologias ao crime e a sexualidade , letristica e melodia(melodia que também vejo como subversão da música , mas essa é outra história). Generalizar é um erro em qualquer área.
 Uma coisa é certa, ainda não compreendeu -se pela maioria(nem por mim) o que realmente é o funkost , provavelmente por causa de nosso preconceito e por nossa dificuldade de respeitar racionalidades alternativas, eu tambem estou em processo. Só sei que o funk ostentação é algo mais profundo do que parece, mesmo que quem está no meio pratique esse lado mais profundo inconscientemente. É da rua . E se a rua fala, eu tô pensando por aqui.

sábado, 2 de novembro de 2013

Preciso Me Encontrar : Antes Do Crivo Dos Criticos, Quero Mais Senso Comum

Cara, a onda desse blog é a despretensiosidade. Ele é escrito todo em um celular, por isso a formatação maluca do ultimo txt . Peço ajuda aos que escrevem por celular para que eu possa sanar tal problema.

Outra coisa, ele é escrito por um sujeito mais ou menos livre,por isso terá dias de textos "marx" e textos "Thatcher". Ainda tô pensando qual lado é o meu,isso desagrada extremistas de ambas as partes. Vamos dizer que estou em um processo de dialética. No mais, sejam todos bem vindos. Pretendo falar pouco de política, eu juro. Quero me desvincular dessas questões ,que mataram minha criatividade e sensibilidade .

 Cheguei num ponto em que ser crítico a todo tempo incomoda as pessoas a minha volta. Não quero mais ser chato! Quero falar da novela,do futebol ,do trem. Quero saber da vida que existe para além da luta de classes ou das clausulas do pacto de dominação(salve Brandão!). É claro que nunca voltarei a ingenuidade ,mas quem sabe eu chegue em um meio termo. Como diria Cartola, "deixe me ir,preciso andar. Vou por ai a procurar. Sorrir pra não chorar".

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Multiusos Do Espaço Público : Partiu Golzinho?

Ontem fui inventar de bater um golzinho com meus vizinhos, algo comum para um garoto suburbano como eu . Num momento desses de jogo frenético, um amigo arrancou o "tampão" do dedo , quem joga sabe o que é isso. Dai me veio uma ideia meio doida: golzinho é praticado em espaço publicos que não são feitos para isso. Deve - se talvez à falta de espaços destinados à pratica ,ou a alma subversiva da rua. Poderiam ser citados outros usos , mas falta me a memória e a vontade de falar deste é algo que já vinha crescendo enquanto eu corria atrás da pelota.
 Vivemos em um mundo globalizado, onde à muito tempo os fluxos de informações conseguem romper os muros simbólicos entre as classes sociais,não em todos os casos,mas sabe se que em todo lugar se sabe o que está acontecendo e sendo vivido em outros lugares. Por causa disso meninos como eu cresem vendo seus idolos jogarem e querem jogar também, alguns destes crescem e inspiram outros meninos que hoje veem aqueles primeiros meninos tomarem posição de idolo, ao ponto de ser um sonho mais ou menos de todo menino ser um jogador de futebol.Não vou entrar no mérito disso ser bom ou ruim, mas que é fato é.
 Poderia ser lindo, e todo menino poder jogar um futebol em uma bela quadra ou campo, como nos bairros mais ricos. Escolinha de futebol do flamengo, uma Nike total 90 (hoje Hypervenom ou Mercurial, mas na minha época era a total),uniforme bonitinho. Não. Onde eu morava era uma ladeira onde a cada 15 min. revesava-se o lado pró ataque, pois achavamos justo. Sempre quem ficava "na outra" era gandula na parte baixa da rua. Creio que realidades parecidas pipocam Brasil a fora.
Me chamem de chato , mas não vejo outro problema se não a ineficiência das políticas públicas para a criação destes espaços. Toda vez que tem uma quadrinha um pouco melhor,pode ver que tem ong ou organização dos próprios moradores por trás disso, e o que é chato, pois acaba por limitar o uso destes espaços. É justo, mas é semi democratizador,quase que uma privatização civil de um espaço publico. um cercamento de campos,literalmente rsrs.
Agora, a rua não ! a rua tem a beleza do não pertencer e ao mesmo tempo ser de todos.Nunca cheguei em uma rua Brasil a fora em que estivesse rolando um golzinho e que eu pedisse pra jogar que eu não fosse aceito, diferente de muitas quadras por ai ,como a da via ligth,que no começo que era "privatizada" pelos locais do centro , onde a aparencia de condição socioeconomica superior dos presentes já intimidaria a aproximação. Na rua não.
 Ouso dizer que o espaço e a praxis do golzinho são algumas das poucas coisas na sociedade que são construidas democráticamente (tirando os momentos em que o dono da bola acha que manda no jogo, mas isso é superavel)
 gostaria de dividir alguns destes pontos :

 o espaço é delimitado e dividido apartir de convenções democráticas ;

 fazem se as (poucas)leis , que são cumpridas na maior parte das vezes;

a aceitação social de funções não é imposta, mas baseada nas aptidões pessoais, e quando impostas revesam se;

 respeitam-se os outros usos da rua ( para ai pro carro passar, olha a moça passando com criança), e isso não desfaz o uso pro golzinho.

Enfim, é só um punhado de ideias iniciais surgidas depois de uma horinha de golzinho. Quem sabe podemos usar essas para medir a nossa realidade social ? Não sei de muita coisa,mas sei que no golzinho, somos todos rua. Quatro de cada lado, apenas o futebol ,nós mesmos e a rua. E ai ? partiu golzinho ?