Ontem fui inventar de bater um
golzinho com meus vizinhos, algo comum
para um garoto suburbano como eu . Num
momento desses de jogo frenético, um amigo
arrancou o "tampão" do dedo , quem joga
sabe o que é isso. Dai me veio uma ideia meio
doida: golzinho é praticado em espaço
publicos que não são feitos para isso. Deve -
se talvez à falta de espaços destinados à
pratica ,ou a alma subversiva da rua.
Poderiam ser citados outros usos , mas falta
me a memória e a vontade de falar deste é
algo que já vinha crescendo enquanto eu
corria atrás da pelota.
Vivemos em um mundo
globalizado, onde à muito tempo os fluxos de
informações conseguem romper os muros
simbólicos entre as classes sociais,não em
todos os casos,mas sabe se que em todo
lugar se sabe o que está acontecendo e sendo
vivido em outros lugares. Por causa disso
meninos como eu cresem vendo seus idolos
jogarem e querem jogar também, alguns
destes crescem e inspiram outros meninos que
hoje veem aqueles primeiros meninos
tomarem posição de idolo, ao ponto de ser
um sonho mais ou menos de todo menino ser
um jogador de futebol.Não vou entrar no
mérito disso ser bom ou ruim, mas que é fato
é.
Poderia ser lindo, e todo menino
poder jogar um futebol em uma bela quadra
ou campo, como nos bairros mais ricos.
Escolinha de futebol do flamengo, uma Nike
total 90 (hoje Hypervenom ou Mercurial, mas
na minha época era a total),uniforme
bonitinho. Não. Onde eu morava era uma
ladeira onde a cada 15 min. revesava-se o
lado pró ataque, pois achavamos justo.
Sempre quem ficava "na outra" era gandula
na parte baixa da rua. Creio que realidades
parecidas pipocam Brasil a fora.
Me chamem de chato , mas não
vejo outro problema se não a ineficiência das
políticas públicas para a criação destes
espaços. Toda vez que tem uma quadrinha
um pouco melhor,pode ver que tem ong ou
organização dos próprios moradores por trás
disso, e o que é chato, pois acaba por limitar
o uso destes espaços. É justo, mas é semi
democratizador,quase que uma privatização
civil de um espaço publico. um cercamento de
campos,literalmente rsrs.
Agora, a rua não ! a rua tem a
beleza do não pertencer e ao mesmo tempo
ser de todos.Nunca cheguei em uma rua
Brasil a fora em que estivesse rolando um
golzinho e que eu pedisse pra jogar que eu
não fosse aceito, diferente de muitas quadras
por ai ,como a da via ligth,que no começo que
era "privatizada" pelos locais do centro , onde
a aparencia de condição socioeconomica
superior dos presentes já intimidaria a
aproximação. Na rua não.
Ouso dizer que o espaço e a
praxis do golzinho são algumas das poucas
coisas na sociedade que são construidas
democráticamente (tirando os momentos em
que o dono da bola acha que manda no jogo,
mas isso é superavel)
gostaria de dividir alguns destes pontos :
o espaço é delimitado e dividido apartir de
convenções democráticas ;
fazem se as (poucas)leis , que são cumpridas
na maior parte das vezes;
a aceitação social de funções não é imposta,
mas baseada nas aptidões pessoais, e
quando impostas revesam se;
respeitam-se os outros usos da rua ( para ai
pro carro passar, olha a moça passando com
criança), e isso não desfaz o uso pro golzinho.
Enfim, é só um punhado de ideias
iniciais surgidas depois de uma horinha de
golzinho. Quem sabe podemos usar essas
para medir a nossa realidade social ? Não sei
de muita coisa,mas sei que no golzinho,
somos todos rua. Quatro de cada lado,
apenas o futebol ,nós mesmos e a rua. E ai ?
partiu golzinho ?
Nenhum comentário:
Postar um comentário