Não sei se é porque eu tenho
muitos amigos que se identificam com causas
sociais , que gostam de politica e que na
maior parte são esquerdistas,mas nessa
semana minha timeline no facebook tinha
mais post sobre rolezinho do que sobre BBB .
Fiquei de boas só observando opiniões,desde
o inicio eu estava na page de criação do
primeiro evento de rolezinho no
facebook,observando as "discussões da
logística" do evento. Como acho que captei a
essência inicial do rolê (já que agora a
bagunça é tão grande que temos de rolezinho
gospel à rolê gay) tenho alguns achismos e
questionamentos que gostaria de
compartilhar (aviso, opiniões polêmicas à
seguir).
Como já venho discutindo neste
blog anteriormente , a rua tem seus usos
diversos , mesmo estes usos sendo diferentes
do seu propósito inicial ( a rua é para os
carros). Estes , chamo de Multiusos do
espaço único. A rua, bem ou mal, é um
espaço publico e plural, enquanto o shopping
na sua essência é um espaço que não suporta
outros usos por ser segregador e seletivo ,e
não acho isso de todo mal, digo isso pois
diversos serviços chegaram no Brasil
justamente por causa dos shoppings e de seu
caráter segregador e exclusivista, prova disso
são os outlets e os "saves day" como o ponto
mix e o polêmico black friday, que
inicialmente surgiram para satisfazer as
necessidades do consumidor de shopping e
depois se expandiram para o comércio
popular. Quem me conhece sabe que meus
nikes são todos de outlet,por isso não me
sinto tão burguês ao usar meu nike flyknit
supreme hehe.
O shopping se caracteriza como
propriedade privada , que por direito se abre
ao publico, e assim é livre o acesso, mas ,
diferente da rua e por ser propriedade
privada , não tem a menor responsabilidade
de se abrir à qualquer tipo de manifestação
dentro dele. Você pode convidar as pessoas
para entrar na sua casa,deixar sua home
sweet home aberta à entrada de todos. Isso te
tira o direito de pedir que as pessoas não
ponham os pés na parede, ou que não fiquem
pulando no sofá ? não ,pois você permitiu a
entrada , mas não coletivizou a posse e o
direito da/na propriedade. Se os shopping
fossem feitos pelo governo e independentes
em 100% do capital de fundos privados dos
grupos empresariais multinacionais que
gerem os shoppings brasileiros (coisa que eu
acho inviável) você poderia frequentá-los até
pelado. Fora isso, infelizmente, temos que se
contentar em respeitar o micro poder
capitalista dos shoppings.
Outra coisa que me incomodou
muito foi ver meus amigos da esquerda
intelectual querendo levantar bandeira de
vanguarda perante esse movimento de
rolezinho. Acho isso mó babaquice, desta
maneira , acabam por nunca deixar o papel
de protagonismo na luta social nas mãos dos
mais pobres, que na minha humilde opinião
não marxista , deveriam ser os atores
principais nesse processo por serem os
maiores interessados em mudanças (em um
sentido não partidário) e assim continuamos
perpetuando a máxima de que "toda revolta é
popular,toda revolução é burguesa". Vimos o
grande "nada" em que deu os protestos de
julho, ainda mais depois do esvaziamento dos
discursos. Os 20 centavos já estão voltando à
passagem (um amigo meu tem uma "teoria
da conspiração" sobre isso, que devo explanar
um dia desses), a corrupção não parou, e sim,
teremos copa. Quem estava lá à frente de
tudo isso ? a esquerda intelectual e
partidarista ,paradoxalmente promovendo (ou
tentando promover) aquilo que eles mais
odeiam : a massa de manobra. Deu merda ! E
o que ganhamos foi só mais gente chata se
dizendo marxista sem ter nem lido/entendido
o mísero manifesto do barbudo bêbado.
Achei o protesto que rolou lá no
pé da rocinha bem mais politico que qualquer
outra marcha partidária. Foi a manifestação
mais pura de politica popular que eu já vi.
Eram os afetados falando por eles mesmo ,
sem interlocutores e de sua própria maneira.
Sobre suas reais demandas,tristezas e
sentimentos. O pobre, falando do pobre por
saber como é ser pobre . Sinto que o povo
cansou dos partidos, cansou da forma de
governo e estado vigente. Cansou de vender
sua voz e iniciativa por uma bolsa qualquer
coisa.O povo viu a direita governar e odiou,
viu a dita eterna esquerda governar , teve
algum beneficio ,mas diante dos escândalos
partidários e da sucateação do viver tem
passado à odiar esta também. O que fazer ?
falar por nós mesmos !
Esses intelectuais orgânicos são
muito engraçados. Parece que estão
buscando sempre uma tese para trabalho de
conclusão de curso de ciências sociais. A
prática da complexificação intelectual do rolê
me fez rir. É gente falando que é a essência da
luta de classes, que tem a ver com bakunin ,
que um filósofo russo-otomano vem explicar
isso pela retórica rolezistica-roterdâniana-
proto-capitalistica-pós-modernista de slavoj
zizek-chauí. Uma pergunta fácil : O cara lá
que quer "zoar-curtir-dá uns beijo" está
realmente preocupado com isso ? Nem vou
responder, pois meus leitores são espertos e
já sabem a resposta. Parece que esse povo de
universidade acha que os comportamentos
humanos tem sempre que estar relacionados
à uma teoria sociopolítica. Antes de marx
como as pessoas conseguiam viver sem a dita
explicação do barbudo para tudo então ? É
obvio que não posso ser ignorante o suficiente
para dizer que o viver não é influenciado
diretamente por fatores externos de cunho
politico e social, mas será que é realmente
necessário complexificar tudo ? será que as
pessoas não conseguem mais "ser" sem que
tenha algo que venha obrigatoriamente
explicar sua postura ? Será que a
complexificação não é só uma coisa que está
nas nossas cabeças já massacradas e
calejadas pelo sistema universitário ? SERÁ
QUE A INTENÇÃO DO ROLÊ NÃO É SÓ CURTIR
MESMO ? sério, parem com isso. Vocês estão
deixando o viver muito chato.
Meu coração impregnado por ideias marxistas ,compromissado com
causas populares , mas ainda crítico ,ainda
não processou ao certo tanta informação, e
provavelmente não chegarei à nenhuma coisa
concreta agora . posso mais à frente mudar
de opinião , me impregnar pelos valores
complexificatórios e sair complexificando a
merda toda, e me tornando o tipo de chato
que tanto critiquei ,ou não. Humildemente
encerro aqui minhas questões e achismos,
não significa que estou certo, mas sei que há alguma
coerência nas minhas ideias. Aos meus
amigos que se identificaram com a causa ,
deixo-vos o mesmo conselho que um cara lá
da FFLCH da USP deu : quer ir ,vá , mas não
vá esquerdar. A Rua é complexa, tão
complexa que sua complexificação
universitária (esquerdista ou não) não vale absolutamente nada.